Rio Grande do Sul, 19 de junho de 2026
Desafios do controle interno no Brasil concentram debates no primeiro dia da 58ª Reunião Técnica do Conaci
Evento reúne controladores de todo o país até esta sexta-feira (19) em Porto Alegre (RS)
As manifestações promovidas na abertura da 58ª reunião técnica do Conselho Nacional de Controle Interno (Conaci), em Porto Alegre (RS), mostraram o acerto na construção do tema do evento, elegendo o consensualismo, a governança e a gestão de riscos como pontos que permearam todas as atividades do dia. A começar pela fala inicial do anfitrião, o Contador e Auditor-Geral do Estado do Rio Grande do Sul, Carlos Geminiano, que, em nome da Contadoria e Auditoria-Geral do Estado do Rio Grande do Sul (Cage), ao dar as boas-vindas aos participantes, afirmou a necessidade de superar a rotina de priorização de processos nas práticas de controle interno em benefício da opção por entregas do Estado para a sociedade. Em torno de 200 pessoas participaram presencialmente do primeiro dia de atividades, com 400 acompanhando a transmissão pelo canal do Conaci, no Youtube.
Na sequência, as manifestações do presidente do Conaci, Leonardo Ferraz, do segundo vice-presidente, Paulo Farias, e da primeira vice-presidente, Luciana Daltro, enfatizaram a importância de continuar a repensar as práticas de controle interno nos órgãos públicos do Brasil à luz das alterações decorrentes da Constituição Federal de 1988, que ampliou as atribuições dos entes federativos na prestação de serviços à cidadania. “Na atualidade, o controle interno saiu da repartição e tornou-se protagonista das decisões de governo nas três esferas de atuação no Brasil. Nosso papel é harmonizar as ações de controle interno no país, tendo em conta a prestação de serviços para a sociedade”, afirmou Ferraz.
Abertura
Logo na abertura das atividades do primeiro dia da reunião, os participantes foram convidados a mergulhar na tradição gaúcha, acompanhando a apresentação do grupo tradicionalista Ana Terra, de São Francisco de Paula (RS). Na sequência, acompanharam a execução do Hino Nacional e o Hino do Rio Grande do Sul, com o coral da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Em seguida, na primeira atividade do dia, a professora Gabriela Lotta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), proferiu a palestra “Arquitetura da Decisão Pública: Quando Governança, Consenso e
Controle Jogam no Mesmo Time”.
Ao longo da palestra, a professora mostrou os desafios do controle interno em um país em que as atribuições do Estado cresceram em ritmo maior do que as condições de prover os serviços necessários para atender ao conjunto da
população, em um país marcado por profundas desigualdades. “Vivemos uma crise de legitimidade da democracia e da representação. O Estado não representa a população brasileira, essa é a sensação que permeia a sociedade. Neste
contexto, o controle não fará o trabalho do Executivo, mas ajudará o Executivo a funcionar melhor, construindo a governança na prática e auxiliando os entes a dialogar, construindo acordos, ou seja, construindo consensualidade”, observou.
No painel a seguir, “Jornada do Consensualismo: Caminhos e Soluções Possíveis”, Vládia Pompeu, Corregedora do Ministério dos Portos e Aeroportos, Juliana Bonacorsi de Palma, professora Associada da Faculdade de Direito da FGV de São Paulo, e o presidente do Conaci, Leonardo Ferraz, continuaram a debater a questão do consensualismo e do controle social. As mudanças na Administração Pública após a promulgação da Constituição Federal de 1988 continuaram a ser utilizadas como marco para a evolução das práticas administrativas, que passaram de um perfil burocratizado para um viés mais participativo e dialogado, tanto da perspectiva dos entes da federação quanto da criação de instrumentos de participação social. Segundo os debatedores, a consensualidade, na forma de
instrumentos de mediação, vem sendo admitida cada vez mais como instrumento de solução de conflitos, mas os órgãos de controle ainda resistem, agarrando-se ao que diz a lei para fazer o controle. No atual contexto normativo, com as práticas cotidianas e o aprimoramento dos órgãos de controle, porém, novos instrumentos são criados para garantir a efetividade das políticas públicas junto à sociedade. O painel contou com a mediação do controlador do município de João Pessoa, Diego Fabrício.
Tarde
A programação da tarde começou com a entrega da certificação para as controladorias do Mato Grosso e do Ceará, que atingiram o Nível 3 do modelo de maturidade IA-CM, um reconhecimento à consolidação das melhores práticas de auditoria interna. Em seguida, a Cage apresentou duas boas práticas do estado do Rio Grande do Sul no controle interno.
Coube ao Auditor do Estado do Rio Grande do Sul, Ednaldo Tavares Rufino Filho, discorrer sobre “Estruturação da Gestão de Riscos nas Contratações Públicas: a Experiência do Rio Grande do Sul”. Ednaldo começou lembrando a importância do controle interno para reduzir riscos nas compras públicas, especialmente com a experiência das aquisições de bens e serviços do Rio Grande do Sul para superar os efeitos da enchente que atingiu o estado em 2024. “São ações estratégicas para a ação do Estado que trazem muitos benefícios para a sociedade”, lembrou.
Segundo Ednaldo, o papel do controle interno é construir pontes para resolver problemas complexos que envolvem a Administração Pública na prestação pública de serviços à sociedade, especialmente no caso das contratações, que
sempre envolvem muitos riscos. “Queremos construir uma metodologia de gestão de riscos que seja adotada por toda a Administração Pública do estado.”
Na apresentação seguinte, os Auditores do Estado Álvaro Santos e Aline Amirati apresentaram o Projeto Escola Íntegra (PEI), iniciativa da Cage que está na quarta edição e que premia alunos de Ensino Médio de escolas públicas do estado, professores e escolas que apresentarem manifestações artísticas que versam sobre a temática da integridade. O projeto está na quarta edição e recebeu inscrições de mais de mil alunos na edição passada. “A corrupção tem um custo que vai muito além da questão financeira, porque impacta as vidas de muitas pessoas”, afirmou Álvaro. “Criamos um ecossistema de integridade, distribuindo materiais para as escolas e fazemos visitas técnicas para interagir com os alunos sobre a questão da integridade”, complementou a auditora Aline.
Em seguida, a Estratégia de Escuta Institucional do Mucci (Modelo Único de Capacidade de Controle Interno) foi lançada pelo segundo vice-presidente do Conaci, Paulo Farias, iniciativa que pretende ouvir controladorias, gestores,
sociedade e órgãos da administração pública para compreender os desafios que enfrentam e suas expectativas com relação ao desenvolvimento de modelos de maturidade. “Queremos saber quais são os desafios dessas controladorias, suas dificuldades no dia a dia, captando as expectativas desses órgãos com relação ao controle interno”, afirmou Farias.
Experiências inovadoras desenvolvidas por órgãos membros do Conaci foram apresentadas durante o painel de boas práticas, mediado pela controladora-geral do Estado de Alagoas, Sâmara Suruagy. Representantes da Controladoria-Geral da União (CGU), da Controladoria-Geral do Estado do Piauí (CGE-PI) e da Controladoria-Geral do Distrito Federal (CGDF) compartilharam iniciativas voltadas ao fortalecimento da governança, da transparência e da gestão de riscos na administração pública. Entre os destaques, o secretário federal de Controle Interno da CGU, Ronald da Silva Balbe, apresentou o case sobre consensualismo antecipado, demonstrando como a auditoria interna pode contribuir para a construção de soluções e consensos antes da instalação de conflitos. Na sequência, Kilmer Távora Teixeira, diretor de Controladoria da CGE-PI, apresentou a experiência do Estado do Piauí na execução de emendas parlamentares com transparência e rastreabilidade. Encerrando o painel, Robson Lopes, da Controladoria-Geral do Distrito Federal, mostrou como o módulo de gerenciamento de riscos corporativos do sistema Saeweb tem apoiado a
governança pública por meio da tecnologia e da inovação.
Para encerrar a programação do primeiro dia, a comunicação ocupou o centro dos debates no painel “Comunicação no Controle Interno e na Auditoria”, mediado pela primeira vice-presidente do Conaci e controladora-geral do Estado do Rio Grande do Norte, Luciana Daltro. A jornalista e assessora-chefe de Comunicação do Conaci, Thais Venturatto, apresentou a palestra “Controle que Conecta: Comunicação Aplicada às Macrofunções do Controle Interno”, defendendo que auditoria, ouvidoria, corregedoria, transparência, integridade e controle social alcançam melhores resultados quando suas ações são traduzidas para uma linguagem acessível, humana e conectada às necessidades da sociedade. O painel contou ainda com a participação de Diocésio Sant’anna, coordenador de
Auditoria do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que abordou a aplicação da Comunicação Não Violenta (CNV) no contexto das auditorias, destacando estratégias para fortalecer o diálogo, reduzir resistências e ampliar a colaboração
entre auditores, gestores e equipes. O debate reforçou que comunicar bem deixou de ser uma atividade de apoio para se tornar um elemento estratégico na geração de valor público e no fortalecimento da confiança dos cidadãos nas instituições de controle.
O segundo dia do Conaci é dedicado à dinâmica interna e às apresentações das câmaras técnicas.
Apresentações
1º dia
Arquitetura da Decisão Pública – Gabriela Lotta
Case RS – Gestão de Riscos nas Contratações Públicas
Projeto Escola Íntegra – CAGE-RS
EXECUÇÃO DE EMENDAS PARLAMENTARES ESTADUAIS COM TRANSPARÊNCIA – Kilmer Tavora
Apresentação CGDF – Case Saeweb 58 RTC Conaci
Lançamento Mucci – Paulo Farias
Comunicação Aplicada ao Controle Interno – Thais Venturatto