Marco de Referência do Modelo de Maturidade das Unidades Centrais de Controle Interno
1 Apresentação
As Unidades Centrais de Controle Interno - UCCIs desempenham papel essencial para a integridade, a governança, a transparência, a participação social, a prevenção de riscos, a avaliação da gestão e a responsabilização no setor público. A realidade dessas unidades, entretanto, é marcada por grande diversidade. Há diferenças significativas de porte, competências, estrutura, autonomia, recursos, inserção institucional e capacidade técnica entre União, estados, Distrito Federal e municípios.
Essa diversidade é especialmente relevante no âmbito municipal. Enquanto alguns entes contam com estruturas especializadas, equipes multidisciplinares e processos consolidados, outros dependem de unidades pequenas, por vezes formadas por um único agente público, que acumulam responsabilidades e operam com recursos limitados. Um referencial nacional de maturidade precisa reconhecer essas diferenças sem renunciar a padrões mínimos de institucionalidade, qualidade e efetividade.
O Modelo de Maturidade das Unidades Centrais de Controle Interno - Mucci foi concebido para responder a esse desafio. Trata-se de um referencial nacional, orientativo e evolutivo, destinado a apoiar as UCCIs na compreensão de sua situação atual, na definição de prioridades e na construção gradual de capacidades institucionais.
O Mucci não se limita à verificação da existência formal de leis, unidades ou procedimentos. Seu foco é verificar se capacidades relevantes estão instituídas, são efetivamente utilizadas, produzem resultados e são continuamente aprimoradas. O Modelo procura, assim, aproximar estrutura, atuação e geração de valor público.
A construção do Mucci é uma iniciativa colaborativa do Conselho Nacional de Controle Interno - Conaci. Participaram representantes de controladorias estaduais e municipais, da Controladoria-Geral da União, e instituições e especialistas do ecossistema nacional de controle, integridade e governança pública.
O processo de elaboração se apoiou em quatro fontes: a experiência prática das UCCIs participantes; a escuta de diferentes atores do controle interno; a análise de normas, guias e modelos nacionais e internacionais; e a construção e validação colaborativa da arquitetura do Modelo.
Entre os referenciais considerados estão modelos de maturidade aplicados às áreas de auditoria interna, integridade, correição e ouvidoria, bem como referenciais de governança, gestão de riscos, transparência, controle interno e accountability. Esses materiais foram utilizados como fontes de aprendizagem e comparação, sem afastar a necessidade de adaptação à realidade federativa brasileira.
O Mucci adota uma visão sistêmica. Suas macrofunções não são tratadas como departamentos isolados, mas como campos de atuação que se relacionam e se retroalimentam: a informação produzida por uma macrofunção apoia a atuação das demais, e cada uma contribui, à sua maneira, para prevenir falhas, corrigir desvios e melhorar a gestão pública.
Essa relação, contudo, não segue uma ordem fixa nem hierárquica. Na prática, as macrofunções atuam simultaneamente e em rede. Informações da ouvidoria podem direcionar auditorias; achados da auditoria podem aperfeiçoar controles e programas de integridade; dados da transparência podem favorecer o controle social e a identificação de riscos; resultados correcionais podem revelar causas sistêmicas e orientar medidas preventivas.
O propósito final dessa integração é fortalecer a capacidade do Estado de prevenir falhas, aprender com evidências, responder adequadamente a desvios, apoiar a boa gestão e entregar melhores resultados à sociedade.
O Mucci é composto por três documentos complementares. O Marco de Referência apresenta a arquitetura conceitual, os princípios e as regras gerais do Modelo. Os Cadernos Técnicos, um por macrofunção, detalham conceitos, responsabilidades, fronteiras e trajetórias de desenvolvimento. As Matrizes de Capacidades e Práticas Esperadas, também organizadas por macrofunção, definem os requisitos avaliáveis, sua classificação e sua progressão. Um exemplo ou uma síntese conceitual do Marco não cria, por si só, requisito adicional de avaliação.
2 Finalidade e objetivos
2.1 Finalidade
O Mucci tem por finalidade orientar o desenvolvimento progressivo das capacidades institucionais das Unidades Centrais de Controle Interno, respeitando a diversidade federativa. Busca uma atuação integrada, profissional, baseada em riscos, orientada a resultados e comprometida com a geração e a proteção de valor público.
O Modelo oferece uma trajetória de evolução. Em vez de estabelecer uma fotografia estática ou uma classificação meramente comparativa, apresenta capacidades que podem ser construídas, institucionalizadas, avaliadas e aperfeiçoadas ao longo do tempo.
2.2 Objetivo geral
Disponibilizar um referencial nacional para diagnóstico, desenvolvimento e acompanhamento da maturidade das UCCIs, organizado por macrofunção e aplicável a diferentes contextos institucionais.
2.3 Objetivos específicos
São objetivos específicos do Mucci:
- estabelecer linguagem comum para conceitos essenciais do controle interno governamental;
- apoiar as UCCIs na identificação de capacidades existentes, lacunas e prioridades;
- orientar a institucionalização de processos e práticas compatíveis com o porte e a realidade de cada ente;
- incentivar autonomia técnica, profissionalização, integração e melhoria contínua;
- fortalecer a coordenação entre as macrofunções e sua relação com a gestão e a governança;
- promover atuação preventiva, orientadora e baseada em riscos;
- aproximar normas, estruturas, práticas, evidências e resultados;
- favorecer a elaboração de planos de desenvolvimento institucional e o acompanhamento da evolução da maturidade ao longo do tempo;
- apoiar ações de capacitação, cooperação e assistência técnica;
- disseminar boas práticas nacionais e internacionais adaptadas à realidade brasileira; e
- contribuir para a transparência, a integridade, a accountability e a geração de valor público.
3 Público-alvo e âmbito de aplicação
3.1 Público-alvo
O Mucci destina-se às Unidades Centrais de Controle Interno dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, independentemente de sua denominação formal. Pode ser utilizado por controladorias-gerais, secretarias de controle, órgãos centrais de sistemas de controle interno ou estruturas equivalentes.
O Modelo também pode servir de referência para:
- dirigentes e equipes das UCCIs;
- autoridades máximas dos entes públicos;
- gestores responsáveis por governança, riscos e controles;
- unidades setoriais ou descentralizadas de controle;
- conselhos e instâncias de governança;
- entidades representativas e redes de cooperação;
- escolas de governo e instituições de capacitação;
- órgãos de controle externo, respeitada a finalidade orientativa do Modelo; e
- pesquisadores e organizações interessadas no fortalecimento institucional do controle interno.
3.2 Conceito funcional de UCCI
Para fins do Mucci, considera-se Unidade Central de Controle Interno a instância responsável por coordenar, orientar, normatizar, monitorar ou avaliar atividades relacionadas ao sistema de controle interno do ente, de acordo com as competências definidas no respectivo ordenamento jurídico.
A denominação, o nível hierárquico e a localização organizacional podem variar. A aplicação do Modelo deve considerar as competências efetivamente atribuídas e exercidas, e não apenas o nome da unidade.
3.3 Abrangência federativa e proporcionalidade
O Mucci foi estruturado para acomodar realidades institucionais distintas. A proporcionalidade, contudo, não significa supressão de capacidades essenciais. Significa admitir diferentes formas legítimas de organizar recursos, responsabilidades e processos para produzir resultados equivalentes.
Uma UCCI de pequeno porte poderá, por exemplo:
- compartilhar estruturas e sistemas;
- utilizar soluções consorciadas ou cooperativas;
- formalizar fluxos simplificados;
- concentrar mais de uma responsabilidade em uma mesma equipe, desde que conflitos sejam administrados; e
- adotar instrumentos proporcionais ao volume e à complexidade de suas operações.
O porte reduzido não afasta requisitos relacionados a integridade, imparcialidade, segregação possível de funções, rastreabilidade, proteção de informações e observância das normas aplicáveis.
3.4 Unidade e escopo da avaliação
A unidade principal de análise é a capacidade institucional associada a cada macrofunção. A avaliação não deve ser limitada ao organograma da UCCI quando atividades relevantes estiverem distribuídas entre outras unidades do ente.
Antes da aplicação, devem ser definidos o ente e a unidade avaliados, as macrofunções incluídas, as unidades responsáveis ou participantes, o período de referência, os responsáveis pela autoavaliação, as fontes de evidência e as limitações conhecidas do escopo.
3.5 Distribuição das macrofunções
O Mucci não determina um desenho organizacional único. As macrofunções podem estar reunidas em uma controladoria-geral ou distribuídas entre diferentes unidades. Em qualquer configuração, devem existir clareza de competências, coordenação, comunicação, prevenção de conflitos e mecanismos de responsabilização.
Quando uma macrofunção não estiver sob responsabilidade direta da UCCI, a avaliação deverá registrar essa circunstância e examinar, conforme o escopo do respectivo caderno técnico, a capacidade de coordenação sistêmica ou a atuação da unidade competente.
4 Princípios estruturantes
Os princípios a seguir orientam a interpretação e a aplicação do Mucci em todas as suas macrofunções. Eles não são avaliados diretamente, mas fundamentam os critérios, os requisitos e a leitura dos resultados descritos nos capítulos seguintes.
4.1 Orientação à evolução e melhoria contínua
O Modelo indica caminhos possíveis de desenvolvimento. Os resultados não rotulam permanentemente uma unidade: apoiam a compreensão do estágio atual e dos próximos passos. As capacidades devem ser avaliadas, aprendidas e aperfeiçoadas de forma contínua. Alcançar um nível não encerra o processo de desenvolvimento.
4.2 Proporcionalidade e diversidade federativa
Os requisitos devem ser interpretados considerando porte, riscos, complexidade, competências e recursos, sem afastar capacidades essenciais ou exigências legais. O Modelo reconhece diferenças regionais e institucionais e admite soluções adequadas a contextos diversos, preservando coerência nacional.
4.3 Aplicabilidade prática e orientação a resultados
As capacidades avaliadas devem estar ligadas ao funcionamento real das UCCIs, produzindo informações úteis para decisões, planejamento e melhoria. A avaliação considera qualidade, tempestividade, alcance e utilidade das entregas, superando uma visão restrita ao cumprimento formal de procedimentos.
4.4 Simplicidade
A linguagem, os instrumentos e os resultados devem ser compreensíveis. A simplificação não compromete a precisão conceitual nem a qualidade da avaliação.
4.5 Autonomia técnica e objetividade
As macrofunções devem contar com condições para exercer suas responsabilidades com imparcialidade, acesso a informações, competência profissional e proteção contra interferências indevidas.
4.6 Integração institucional
As macrofunções devem compartilhar informações e coordenar sua atuação, respeitando competências, independência, sigilo e segregação de responsabilidades.
4.7 Institucionalização
Uma capacidade madura não depende exclusivamente de pessoas específicas. Deve estar incorporada a atribuições institucionais, processos, recursos, responsabilidades e rotinas capazes de assegurar continuidade.
4.8 Atuação baseada em riscos
Decisões, planos e prioridades devem considerar os riscos que possam afetar objetivos, recursos, integridade, serviços e resultados públicos.
4.9 Geração de valor público e transparência
As macrofunções devem contribuir para melhorar decisões, serviços, confiança, uso de recursos, integridade e capacidade de entrega do Estado. A implementação e a comunicação dos resultados favorecem prestação de contas, diálogo institucional e participação, respeitadas as restrições legais.
4.10 Avaliação baseada em evidências
Toda conclusão deve ser sustentada por evidências suficientes, pertinentes, confiáveis e atuais. Declarações sem suporte não são suficientes para reconhecimento de capacidade.
5 Ciclo integrado do controle interno
O Mucci organiza a atuação das Unidades Centrais de Controle Interno em seis macrofunções: Apoio à Gestão em Controles Internos, Transparência, Ouvidoria, Auditoria Interna, Correição e Integridade. Este capítulo descreve como elas se relacionam entre si dentro do sistema de controle interno, sem estabelecer hierarquia ou sequência obrigatória entre elas.
5.1 Visão sistêmica
As seis macrofunções atuam simultaneamente, com responsabilidades próprias e intercâmbio de informações. O ciclo integrado conecta as contribuições de apoio à gestão, transparência, ouvidoria, auditoria interna, correição e integridade, com o objetivo de melhorar decisões, serviços e resultados públicos.
Essa relação não estabelece subordinação entre macrofunções nem exige que uma informação percorra todas elas antes de chegar à instância competente. Uma ocorrência pode exigir encaminhamento direto à Correição; um risco pode orientar imediatamente a gestão; uma demanda de acesso à informação deve seguir seu fluxo próprio.
5.2 Contribuições e responsabilidades
| Apoio à Gestão em Controles Internos |
Fortalecer a capacidade dos gestores de administrar riscos e controles. |
| Transparência |
Disponibilizar informações úteis, acessíveis e confiáveis para direitos, decisões e controle social. |
| Ouvidoria |
Acolher e proteger usuários, tratar manifestações e transformar experiências em melhorias. |
| Auditoria Interna |
Oferecer avaliação e consultoria independentes e baseadas em riscos. |
| Correição |
Tratar irregularidades com garantias e utilizar causas e resultados para prevenção. |
| Integridade |
Coordenar medidas, orientação e aprendizagem sobre riscos e condutas. |
A Integridade articula medidas preventivas e informações sobre riscos de conduta, mas não dirige os julgamentos da Auditoria Interna nem as decisões correcionais. O Apoio à Gestão oferece métodos, orientação e monitoramento; as áreas gestoras escolhem respostas, executam controles e respondem por seus resultados. A Auditoria mantém julgamento profissional independente sobre governança, riscos e controles.
6 Arquitetura do modelo
6.1 Componentes da arquitetura
O Mucci organiza capacidades institucionais em seis macrofunções, cinco dimensões de análise e cinco níveis de maturidade. Cada capacidade possui propósito, resultado esperado e práticas verificáveis. Essa estrutura permite conhecer o que a macrofunção entrega, quais condições sustentam sua atuação e como ela evolui.
A leitura parte da macrofunção e do nível. Dentro de cada nível, as capacidades são classificadas por uma dimensão predominante. Cada capacidade reúne práticas esperadas, identificadas individualmente e acompanhadas de evidências exemplificativas.
6.2 Cinco dimensões de análise
Cada capacidade é examinada sob uma dimensão predominante, que representa o ângulo principal pelo qual ela contribui para a maturidade da macrofunção. As cinco dimensões cobrem, em conjunto, o que a macrofunção entrega, as condições que sustentam sua atuação, as normas que a regulam, como ela é dirigida e prioriza riscos, e como mede e aperfeiçoa seus resultados.
| Serviços e Entregas |
O que a macrofunção efetivamente entrega e como essas entregas evoluem? |
| Organizacional e Estrutural |
Quais responsabilidades, pessoas, meios e condições sustentam a atuação? |
| Normativa e Regulatória |
As regras e os referenciais são adequados, conhecidos, aplicados e atualizados? |
| Governança e Gestão de Riscos |
Como prioridades, responsabilidades, riscos e decisões são articulados? |
| Desempenho e Resultados |
Como a atividade mede, comunica, avalia e melhora sua atuação e seus efeitos? |
6.2.1 Serviços e Entregas
Esta dimensão examina o que a macrofunção efetivamente oferece a seus destinatários e como essas entregas se tornam mais úteis e abrangentes. Inclui publicação e acesso à informação, tratamento de manifestações, medidas de integridade, orientação aos gestores, serviços de avaliação e consultoria e resposta correcional, conforme cada matriz.
A trajetória inicia com o diagnóstico dos serviços existentes, avança para entregas estruturadas, incorpora prevenção e qualificação, alcança atuação proativa e aconselhamento e culmina em transformação institucional e soluções aperfeiçoadas.
6.2.2 Organizacional e Estrutural
Esta dimensão examina atribuições, vinculação, responsáveis, competências, disponibilidade de pessoas, recursos, tecnologia, acesso e continuidade. Abrange o diagnóstico institucional, as condições mínimas de atuação, a organização do trabalho e o desenvolvimento profissional, avançando para planejamento da capacidade, proteção técnica e cultura institucional.
6.2.3 Normativa e Regulatória
Esta dimensão examina se regras, métodos, procedimentos e referenciais são conhecidos, adequados, aplicados e atualizados. Parte do diagnóstico das normas e atribuições; avança para regulamentação e procedimentos; incorpora acompanhamento da conformidade; e chega ao aperfeiçoamento baseado em evidências, riscos e aprendizagem.
6.2.4 Governança e Gestão de Riscos
Esta dimensão examina a direção da atividade, o planejamento, a priorização, as responsabilidades, a articulação entre instâncias, os fluxos de informação e o uso de riscos nas decisões. Distingue riscos que afetam a própria macrofunção dos riscos dos processos e objetivos públicos aos quais suas entregas se dirigem.
6.2.5 Desempenho e Resultados
Esta dimensão examina como a macrofunção conhece, comunica e aperfeiçoa sua atuação. Inclui autoavaliação e Plano de Evolução, registros e indicadores, qualidade, desempenho, custos, adoção das orientações, efeitos, percepção das partes interessadas, aprendizagem e demonstração de valor.
6.3 Cinco níveis de maturidade
O Mucci descreve a evolução das macrofunções em cinco níveis: Inicial, Fundamental, Desenvolvido, Consolidado e Referência. Cada nível representa um estágio mais avançado de institucionalização do anterior, e o avanço é cumulativo: para alcançar um nível, a unidade precisa manter as capacidades já reconhecidas nos níveis anteriores. O nível de uma unidade decorre das capacidades que ela efetivamente demonstra, conforme os critérios de cada matriz, e não do tempo de existência da unidade, da quantidade de documentos produzidos ou da sofisticação de seus sistemas.
| 1 Inicial |
Conhecer a situação, registrar lacunas, realizar autoavaliação e aprovar o Plano de Evolução. |
| 2 Fundamental |
Organizar serviços básicos, responsabilidades, meios, regras, planejamento e registros. |
| 3 Desenvolvido |
Qualificar a atuação, aplicar métodos, priorizar por riscos e avaliar qualidade e desempenho. |
| 4 Consolidado |
Integrar informações e riscos à governança, antecipar problemas e avaliar efetividade. |
| 5 Referência |
Sustentar transformação, cultura, aprendizagem, cooperação e demonstração de valor. |
6.3.1 Nível 1 Inicial
O nível Inicial estabelece uma linha de base documentada para a evolução. Em todas as macrofunções há seis capacidades nesse nível: diagnóstico dos serviços e entregas; diagnóstico das condições institucionais; diagnóstico normativo; diagnóstico de governança ou identificação inicial de riscos e vulnerabilidades; autoavaliação; e Plano de Evolução.
As práticas incluem registrar o que existe e suas lacunas, comunicar resultados à liderança, apreciar ou validar a autoavaliação e aprovar um plano com prioridades, responsáveis e prazos. A atuação pode ainda ser fragmentada, mas essa condição não dispensa os produtos de diagnóstico e planejamento previstos. O nível Inicial não deve ser confundido com atribuição automática por ausência de práticas.
6.3.2 Nível 2 Fundamental
O nível Fundamental organiza os serviços básicos e as condições necessárias à sua continuidade. Responsabilidades, pessoas, recursos, acessos, regras, procedimentos e planejamento passam a sustentar entregas regulares e registros verificáveis.
As entregas variam: Apoio à Gestão orienta, capacita, apoia registros básicos e organiza a interlocução com tribunais de contas; Transparência publica e atende pedidos; Ouvidoria recebe, protege e trata manifestações; Auditoria realiza avaliações estruturadas e acompanha recomendações; Correição trata notícias e conduz procedimentos com garantias; e Integridade executa o Programa e oferece orientação.
6.3.3 Nível 3 Desenvolvido
O nível Desenvolvido acrescenta atuação preventiva e planejamento baseado em riscos, qualificação dos serviços, coordenação entre áreas, atualização dos referenciais e gestão da qualidade. Indicadores e informações sobre custos e resultados apoiam decisões de melhoria.
A evolução aparece na aplicação assistida de metodologia pelos gestores; na acessibilidade e nos dados abertos em Transparência; na qualidade das respostas e participação em Ouvidoria; em auditorias de desempenho, consultoria e avaliação de benefícios; na qualidade das apurações e prevenção de recorrências correcionais; e na gestão de riscos e efetividade das medidas de Integridade.
6.3.4 Nível 4 Consolidado
O nível Consolidado amplia a integração à governança, o aconselhamento, o uso de dados e a capacidade de antecipar riscos e reconhecer padrões. O planejamento da capacidade futura, as salvaguardas técnicas e a avaliação mais abrangente da qualidade e da efetividade sustentam essa atuação.
Apoio à Gestão adapta o método aos setores, monitora preventivamente e articula riscos estratégicos com o centro de governo. Transparência e Ouvidoria aprofundam a orientação às necessidades e à experiência dos usuários. Auditoria incorpora riscos emergentes, temas estratégicos e sistêmicos, coordenação de provedores e avaliação externa de qualidade. Correição produz recomendações sistêmicas e analisa causas e recorrências. Integridade articula riscos corporativos e critérios de integridade na gestão de pessoas.
6.3.5 Nível 5 Referência
O nível Referência expressa transformação institucional sustentada, cultura incorporada à rotina, aprendizagem contínua, inovação útil, cooperação e demonstração de valor. As informações da macrofunção são utilizadas de modo consistente nas decisões estratégicas, e suas práticas contribuem para outras áreas ou entes.
Apoio à Gestão enfatiza autonomia gerencial, sustentabilidade das mudanças, padrões aplicáveis, riscos estratégicos, cooperação e demonstração de contribuição com limites explícitos. Transparência e Ouvidoria incluem coprodução com usuários e sociedade. Auditoria, Correição e Integridade incluem disseminação de soluções e práticas avançadas, cultura e reconhecimento.
6.4 Capacidades e práticas esperadas
A capacidade institucional é a aptidão demonstrável que se deseja desenvolver. Na matriz, recebe código e título e é descrita por nível, dimensão predominante, propósito e resultado esperado. As práticas esperadas expressam o que deve ser realizado para demonstrá-la. A evidência exemplificativa indica formas possíveis de comprovação.
A expressão Área de Processo-Chave, ou KPA, permanece como referência conceitual ao agrupamento de práticas associado a uma capacidade, presente em alguns produtos. Para identificação e rastreabilidade, utiliza-se a nomenclatura e o código efetivamente registrados nas Matrizes de Capacidades e Práticas Esperadas.
A prática é a unidade elementar de verificação. Propósito e resultado esperado orientam sua interpretação conjunta: cumprir uma atividade de forma apenas documental não comprova o resultado da capacidade. Uma mesma evidência pode apoiar mais de uma prática, desde que seu alcance em cada uma seja indicado e não se presuma atendimento por associação.
6.5 Codificação e rastreabilidade
O código da capacidade segue o formato SIGLA.nível.sequencial. O código da prática acrescenta .P e o número da prática. O sequencial identifica a capacidade dentro do nível; não identifica a dimensão.
| Apoio à Gestão em Controles Internos |
AGC |
| Transparência |
TRA |
| Ouvidoria |
OUV |
| Auditoria Interna |
AUD |
| Correição |
COR |
| Integridade |
INT |
Por exemplo, o código TRA.2.1 identifica a capacidade de publicação ativa das informações obrigatórias da Transparência no nível Fundamental. O código TRA.2.1.P1 identifica a prática associada, de publicar essas informações em formato acessível, organizado e atualizado. A dimensão predominante é registrada em campo próprio, e não no código.
6.6 Capacidade comum de articulação entre as macrofunções
A versão 5.0 das seis matrizes inclui, no nível Desenvolvido e na dimensão Governança e Gestão de Riscos, a capacidade Articulação entre as macrofunções do Mucci. Sua finalidade comum é prevenir lacunas, duplicidades e encaminhamentos inadequados em assuntos que envolvam mais de uma macrofunção.
A capacidade exige que as interfaces entre as macrofunções presentes no ente tenham responsáveis, critérios e fluxos definidos; que encaminhamentos e compartilhamentos pertinentes sejam rastreáveis; e que competências, sigilo, proteção de dados e independência da Auditoria Interna sejam preservados. Os fluxos devem ser aplicados às demandas compartilhadas e avaliados periodicamente. Quando não houver demanda no período, a revisão documentada do fluxo pode demonstrar que ele permanece disponível para uso.
A redação é comum no propósito e na lógica das práticas, com adaptação das evidências e salvaguardas às atribuições de cada macrofunção. A existência de documento ou reunião isolada não demonstra a capacidade: é necessário comprovar uso, revisão ou prontidão do fluxo e tratamento das lacunas, duplicidades ou conflitos identificados.
7 Governança e atualização do Modelo
Este capítulo trata de quem responde pelo Mucci, como o Modelo é atualizado e como dúvidas de aplicação devem ser tratadas ao longo do tempo.
7.1 Titularidade institucional
O Mucci é uma iniciativa institucional do Conselho Nacional de Controle Interno - Conaci. Sua governança deve preservar legitimidade federativa, consistência metodológica, atualização técnica e participação das instituições integrantes.
7.2 Manutenção, atualização e casos omissos
A manutenção e o aperfeiçoamento do Modelo são de responsabilidade das câmaras técnicas do Conaci ou de grupo de trabalho designado, dentro de sua respectiva área de competência. O Mucci é um modelo evolutivo: sua atualização pode decorrer de alterações legais ou normativas, de mudanças em padrões profissionais, de resultados de aplicações e pilotos, de evidências sobre dificuldade ou baixa utilidade de requisitos, da evolução tecnológica, de riscos emergentes, de contribuições das UCCIs e partes interessadas, ou do desenvolvimento de novos referenciais.
Dúvidas de aplicação, casos omissos e propostas de aperfeiçoamento devem ser registrados e submetidos à câmara técnica ou ao grupo de trabalho competente. Quando não houver câmara técnica ou grupo de trabalho designado para determinada macrofunção, as informações devem ser submetidas à Diretoria do Conaci. Orientações com efeito geral devem ser publicadas e incorporadas às revisões futuras, evitando interpretações informais divergentes.
8 Jornada no Mucci
O Mucci não se limita a classificar a maturidade de uma Unidade Central de Controle Interno (UCCI). O modelo foi concebido para apoiar uma jornada contínua de desenvolvimento institucional, permitindo que cada unidade compreenda as capacidades esperadas, reconheça sua situação atual, defina prioridades de evolução e acompanhe os avanços alcançados.
Essa jornada pode ser compreendida em quatro momentos articulados: compreender, diagnosticar, evoluir e avançar. Eles não representam etapas burocráticas isoladas, mas um processo contínuo de aprendizagem e fortalecimento das capacidades da UCCI.
8.1 Compreender - Onde queremos chegar
O ponto de partida é conhecer o próprio Modelo de Maturidade e compreender o que caracteriza uma atuação progressivamente mais madura.
As macrofunções, dimensões, níveis e KPAs explicitam as capacidades esperadas e oferecem uma referência comum para que a UCCI possa analisar sua atuação. O modelo, portanto, funciona como um referencial de desenvolvimento, permitindo visualizar não apenas requisitos a serem atendidos, mas características institucionais que podem ser construídas e fortalecidas ao longo do tempo.
Nesse primeiro momento, a pergunta central é:
Onde queremos chegar?
A resposta não corresponde necessariamente ao nível máximo de maturidade em todas as capacidades. Cada UCCI deve considerar seu contexto, atribuições, riscos, recursos e necessidades para estabelecer uma trajetória de desenvolvimento coerente com sua realidade.
8.2 Diagnosticar - Onde estamos
Conhecido o referencial, a UCCI realiza sua Autoavaliação de Maturidade.
A autoavaliação permite identificar o estágio atual das capacidades avaliadas, reconhecer práticas já institucionalizadas e evidenciar lacunas e oportunidades de melhoria. O diagnóstico resulta da comparação entre as capacidades previstas pelo Mucci e aquilo que efetivamente ocorre na unidade.
A pergunta passa a ser:
Onde estamos em relação ao que o modelo propõe?
Mais do que produzir uma nota, a autoavaliação deve gerar conhecimento útil para a tomada de decisão. Seu principal valor está em tornar visíveis forças, fragilidades e oportunidades de desenvolvimento, oferecendo uma base objetiva para a definição das prioridades da UCCI.
8.3 Evoluir - Como avançamos
As lacunas identificadas na autoavaliação não devem ser tratadas automaticamente como uma lista de providências a executar. Elas constituem insumos para análise e priorização.
A UCCI deve avaliar quais capacidades precisam ser desenvolvidas, considerando sua relevância, contexto, riscos, recursos disponíveis e contribuição para os resultados institucionais. As prioridades selecionadas são organizadas no Plano de Evolução.
O plano transforma o diagnóstico em ação e responde à pergunta:
Como avançamos?
Para isso, estabelece as ações necessárias ao desenvolvimento das capacidades priorizadas, seus responsáveis, prazos e resultados esperados. A evolução deixa, assim, de ser uma intenção genérica e passa a constituir um processo planejado e acompanhável.
8.4 Avançar - Alcançar um novo patamar
A implementação do Plano de Evolução deve produzir mudanças concretas nas capacidades da UCCI. Novas práticas podem ser institucionalizadas, processos aperfeiçoados, competências desenvolvidas, métodos incorporados e serviços aprimorados.
O avanço da maturidade, entretanto, não é um fim em si mesmo. O desenvolvimento das capacidades deve contribuir para uma atuação mais qualificada e, progressivamente, para melhores decisões, melhores serviços e maior geração de valor para a sociedade.
Por isso, alcançar um novo nível ou ampliar a pontuação de maturidade somente é relevante quando esse avanço representa capacidade institucional efetivamente desenvolvida e utilizada.
8.5 Pacote de Soluções Conaci como suporte à evolução
Ao longo dessa jornada, especialmente na elaboração e implementação do Plano de Evolução, as UCCIs poderão contar com o Pacote de Soluções Conaci.
O Pacote de Soluções não constitui uma etapa obrigatória do modelo nem uma relação fechada de instrumentos que todas as unidades devam adotar. Ele funciona como um repositório de apoio ao desenvolvimento das capacidades, reunindo ferramentas, metodologias, referenciais, modelos, soluções tecnológicas e boas práticas disponibilizados pelos membros e parceiros do Conaci ou desenvolvidos por suas câmaras técnicas.
A utilização das soluções deve decorrer das necessidades identificadas na autoavaliação e das prioridades estabelecidas no Plano de Evolução. Dessa forma, o Mucci identifica o que precisa ser desenvolvido, enquanto o Pacote de Soluções pode apoiar a unidade na definição de como desenvolver determinadas capacidades.
8.6 Jornada contínua
A jornada não termina com a implementação do Plano de Evolução. Após o desenvolvimento das ações, novas rodadas de autoavaliação permitem verificar os avanços alcançados, identificar capacidades ainda em desenvolvimento e reconhecer novos desafios.
Forma-se, assim, um ciclo contínuo:
Conhecer o modelo → Avaliar a situação atual → Identificar lacunas → Priorizar → Planejar a evolução → Desenvolver capacidades → Reavaliar.
À medida que a unidade evolui, novos desafios surgem e capacidades anteriormente suficientes podem demandar aperfeiçoamento. A maturidade deve ser entendida, portanto, como um processo permanente de aprendizagem, adaptação e desenvolvimento institucional, e não como uma certificação definitiva ou um ponto de chegada.
Nesse sentido, a jornada proposta pelo Mucci conecta referência, diagnóstico, planejamento, implementação e aprendizagem, transformando a avaliação da maturidade em instrumento para o fortalecimento contínuo das UCCIs e para a construção de instituições mais íntegras, eficientes e orientadas a resultados.
9 Disposições finais
O Mucci deve ser aplicado de forma coerente com sua natureza orientativa, progressiva, baseada em evidências e comprometida com o desenvolvimento institucional.
As organizações permanecem responsáveis por observar as normas aplicáveis e adaptar a implementação às suas competências e contexto. Nenhuma disposição do Modelo deve ser interpretada como autorização para reduzir obrigações legais ou profissionais.